sábado, 14 de agosto de 2010

INSPIRE, EXPIRE. MAS NEM PENSE EM ROUBAR NOSSA TRADIÇÃO - Jason Burke

Índia adota postura rígida em relação às origens do Yoga.


O governo pretende estabelecer regras em relação às práticas.

Você é do Power Yoga, do Yoga Nu, do Yoga do Riso, do Yoga Cristão ou do Contemporâneo? Ou talvez, você prefira o "puro" Ashtanga Vinyasa? Se seu estilo de Yoga preferido está entre os aqui mencionados, você poderá estar do lado errado na tentativa de definir o que constitui a milenar disciplina física e mental que é o Yoga.

O governo indiano, na tarefa de proteger a rica herança do país da medicina e prática começou a filmar centenas de ásanas na tentativa de tornar o sistema mais rígido. A intenção desses vídeos é prover evidência irrefutável contra qualquer um que tente patentear um "novo" estilo de Yoga que já tenha sido criado pelos indianos. O esforço feito anteriormente nesse sentido, de definir o Yoga baseado simplesmente nas traduções de textos antigos trouxe resultados, portanto, agora eles tentam novamente.
"É como o futebol e a Grã-Bretanha”, disse Suneel Singh, um dos maiores gurus de Yoga da Índia. “Os ingleses deram esse esporte ao mundo, o que é lindo e generoso. Mas imagine se as pessoas noutros países começassem a dizer que elas inventaram essa atividade. Seria irritante”.

O Dr. Vinod Kumar Gupta, que lidera a Biblioteca Digital de Conhecimento Tradicional, uma organização governamental baseada em Delhi, estabelecida pelos Ministérios da Saúde e da Ciência, disse ao The Guardian: “Um simples texto não é adequado. As pessoas estão reivindicando que estão fazendo algo diferente do Yoga original quando eles não estão.

O Yoga se originou na Índia. As pessoas não podem reivindicar a invenção de um novo Yoga quando eles não o fizeram”. A campanha para proteger essa rica tradição indiana da arte medicinal e sua prática já contabilizou grandes vitórias, forçando companhias européias a reverter patentes no uso de extrato de melão, gengibre, cominho, açafrão e cebolas para o mercado de produtos naturais.
Em cada caso, oficiais do governo indiano vasculharam na nova biblioteca digital para submeter cuidadosamente as traduções de trechos de livros médicos do século XIX até manuais da tradicional medicina ayurvédica do século V para sustentar suas afirmações. Mas tentando combater o Yoga de ser “indevidamente utilizado” é diferente de defender as plantas indianas contra a “bio-prospecção” para remédios naturais por companhias estrangeiras.

Existem dezenas - senão centenas - de milhões de praticantes e centenas de diferentes gamas de escolas, desde Naked Yoga (Yoga nu) até Yoga Cristão, desenvolvidos em escolas e igrejas nos Estados Unidos. “Não há a intenção de que as pessoas parem de praticar Yoga, mas ninguém deve se apropriar do Yoga e começar a cobrar dinheiro de franquia”, disse Gupta, que como muitos residentes em Delhi pratica a arte antiga num parque perto de sua casa. “Quanto ao Hot Yoga, Power Yoga, ou o que quer que seja não tenho nada a comentar. Nosso trabalho é mostrar a evidência e deixar que os outros decidam”.
A campanha para preservar o Yoga como uma criação indiana tem suas raízes na tentativa feita há alguns anos atrás pelo Bikram Choudhury, o auto-proclamado “professor de Yoga das estrelas de Hollywood” para conseguir patentear seu Bikram Yoga nos USA.
“Eles estão criando marcas”, disse Guru Singh, tendo ele mesmo inventado o que ele chama de “Yoga Urbano”. “De qualquer maneira, batendo palmas, rindo, todas essas coisas, todas elas existiam antes. Eles simplesmente deram um novo nome em inglês”. Mesmo na Índia os yogis e yoginis estão divididos.

Os conservadores dizem que somente o Yoga descrito nos textos como Hatha Yoga Pradipika, manual compilado por um sábio do século XV, é a verdadeira tradição. Mas uma nova geração deseja algo mais. Guru Mohan, 31 anos, dirige um curso para jovens profissionais indianos que trabalham em companhias de tecnologia na grande cidade satélite de Noida ao redor de Delhi. “O estilo de vida era diferente há 2 mil anos atrás. Haviam necessidades diferentes. Naquela época eles praticavam Yoga em selvas e rios. De acordo com os textos se usava estrume de vaca para limpar o local onde você iria praticar. Isso não é mais apropriado nem mesmo na Índia”, diz Mohan que usa esse nome profissionalmente.

De acordo com Mohan, que foi o pioneiro do que ele chama “Call Center Yoga” com ásanas especiais para aqueles que passam horas atendendo telefones, algumas coisas, no entanto, são eternas. “Yoga está aí para toda humanidade. É para servir as pessoas”, diz o guru. É uma sabedoria tradiocional e seu alcance nunca deve ser limitado”.
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Opinião de um perito: “Patentear o Yoga é tolice”

As 64.000 posturas formam apenas uma minúscula parte do Yoga. As posturas não são o fim em si mesmas, mas a preparação para se aprofundar ainda mais, com práticas mais significativas. As posturas não são a definição de Yoga, que consiste em práticas respiratórias, relaxamento profundo, e práticas meditativas, além das conhecidas posturas.

As práticas e as tradições do Yoga remontam a milhares de anos. Ou melhor, nós somos intérpretes de uma sabedoria muito antiga. Patentear e filmar posturas específicas é angustiante. O Yoga é um imenso corpo de conhecimento e prática, e você não pode patentear uma tal entidade, separar uma porcentagem dela. O Yoga tampouco pertence somente à Índia. Estátuas de posturas e práticas de Yoga foram descobertas ao redor do mundo: na Colômbia, existem estátuas de pessoas sentadas em posição de Yoga, ilustrando práticas de respiração e meditação.

Deste modo o Yoga é mais difundido no exterior do que somente na Índia. Parece uma absoluta tolice que alguém queira patenteá-lo. Swami Pragyamurti Saraswati foi diretor do Satyananda Yoga Center em Londres por mais de 30 anos. Entrevista feita por Patrick Kingsley.
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Publicado no jornal The Guardian em 8 de Junho de 2010.
Tradução de Vicente Morisson.


(Texto extraído do site http://www.yoga.pro.br/)
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